Desmitificando a gestão do Terceiro Setor

Existem muitos mitos na gestão do Terceiro Setor que precisam ser desvendados. E nada melhor do que sete anos de experiência na gestão de um Instituto do Terceiro setor, no caso o IOS (instituto da Oportunidade Social), para decifrar na prática esses mitos. Experiência essa, que se transformou numa história de muito sucesso no qual inserimos um novo modelo de negócio que se tornou mais interessante para a comunidade atendida e possibilitou a criação de relacionamento e captação de recursos com outras empresas privadas,  e também com o Governo; o investimento social captado decuplicou assim como o número de vagas para a comunidade cresceu nesta mesma proporção; a empresa pulou de 9 funcionários para 52 funcionários; conquistou seu espaço físico para a Matriz e abriu filiais em 3 Estados brasileiros; desenvolveu um portfólio de serviços sociais e conquistou a referência no seu modelo de negócio, que, a partir de 2016, será expandido no modelo de Franquia Social. E, principalmente, atua na diminuição de um grande problema brasileiro: o desemprego de jovens e pessoas com deficiência, criando indicadores de impacto social.

aaeaaqaaaaaaaajgaaaajdk2mwiwztg2ltnhotitngrizs1izgezltuzyju5mthkzdqyyw

Esta vivência além de ter proporcionado uma excelente experiência profissional, nos mostrou aprendizados importantes a serem compartilhados com outras empresas do Terceiro Setor, na constante busca da fórmula da sobrevivência, seguem abaixo:

  • Atuais donos da Empresa: A Diretoria Estatutária deve ser composta por profissionais com o perfil mais estratégico, preocupados com a sustentação financeira, inovação e cumprimento da missão e visão da empresa. É sabido da dificuldade de engajar voluntários para esta enorme responsabilidade, o que torna muito comum no Terceiro Setor a Diretoria ser composta de pessoas que apenas “assinam documentos”. Ou ainda, membros da mesma família que ficam revezando os cargos. Mas, é importante considerar que certamente não existirá uma empresa sustentável amanhã sem uma Diretoria estratégica e visionária hoje. Mudar é preciso.
  • Recursos Humanos: Muito se fala sobre a falta de profissionalização para o Terceiro Setor e sobre a cultura do “pagar pouco” para os seus funcionários, muitas vezes bem abaixo da tabela de mercado. Ou ainda, dar oportunidade para quem quer trabalhar na filantropia, mas não tem qualificação profissional para o trabalho em questão. Pensando de uma forma simples, algumas empresas insistem em viver no dilema de Tostines: “Não investem em profissionais qualificados porque não possuem recursos financeiros disponíveis, e não conseguem captar mais recursos financeiros porque não investem em profissionais qualificados. ”

Não adianta fugir. As empresas são feitas de pessoas. Os resultados são gerados pelas pessoas. Quanto maior a especialidade técnica e melhor o desenvolvimento comportamental dos funcionários, melhores serão os resultados atingidos pela empresa.

Não dá mais para aceitar Ongs que não possuem uma Gestão capaz de manter um fluxo de caixa que sustente a folha de pagamentos dos funcionários, ou que praticam o nepotismo, ou ainda, que colocam em risco o atendimento de seus beneficiários dependendo principalmente de trabalho voluntário. Voluntariado é importante, mas ele não substitui o compromisso e a disponibilidade de um funcionário contratado.

As empresas do Terceiro Setor devem buscar a cereja do bolo: Profissionais com as competências técnicas e comportamentais exigidas para o trabalho social, e que ainda acreditam no Terceiro Setor e buscam nele uma oportunidade de trabalhar para o desenvolvimento da sociedade em que atua. Certamente, o engajamento profissional deste indivíduo vai trazer resultados muito mais eficazes do que um conjunto de indivíduos sem estas habilidades.

  • Foco na Missão e Visão: A empresa sem fins lucrativos existe para executar um ou mais trabalhos sociais ou ambientais. Muito provavelmente esta escolha, antes da abertura da empresa, foi feita com base em experiências vivenciadas por seus Fundadores, de serviços que precisam ser melhorados e/ou de causas que precisam ser defendidas. Eis aqui a missão da empresa social.

A visão define onde a empresa quer chegar. É o que chamamos de norte para a empresa. Pois bem. Assumido este compromisso, a empresa social precisa realizar o trabalho a que se propôs com competência, transparência e ética, disponibilizando aos seus beneficiários um serviço respeitoso e de qualidade. Kelly enfatiza que: “Não é porque é para atender a uma comunidade específica e carente de recursos básicos, que o trabalho pode ser feito de qualquer jeito. Um trabalho social se propõe a fazer mais e melhor aquilo que o Governo não faz. Então, seja o resultado do nosso trabalho a mudança que queremos amanhã para o nosso país!

Trabalho é trabalho e ponto. As expectativas criadas para a comunidade beneficiária devem ser atendidas, cada qual com o compromisso assumido com os seus mantenedores. Isto sim é responsabilidade social.

  • Relações Institucionais e Captação de Recursos: É muito comum encontrarmos entidades sociais onde os funcionários da retaguarda administrativa fazem de tudo: desde atender os beneficiários, atuar na execução administrativa da entidade, até buscar recursos de pessoas físicas e jurídicas. Este modelo de trabalho está errado? Não, não está errado. Mas, por si só, é insuficiente para manter a sustentação financeira da empresa para os próximos anos. Boa parte destas entidades sociais atrasam o pagamento de contas, incluindo aqui o pagamento dos salários dos seus funcionários e demais tributos trabalhistas, pois não possuem foco nas tarefas que precisam ser mais estratégicas.

Investir na contratação ou no treinamento interno para obter um ou mais profissionais focados na execução de articulação em rede, fidelizar o relacionamento com os mantenedores atuais e buscar novos relacionamentos, doações, recursos e serviços, é essencial para a sobrevivência desta empresa. Lembra que comentamos sobre o dilema de Tostines? Pois bem, este dilema se aplica muito bem aqui.

  • Sustentação Financeira: Ah, o tão sonhado dinheiro de cada dia. Sim, dá para prestar um serviço social pontualmente, sem dinheiro. Mas não dá para ter uma empresa social sem dinheiro.

Pessoas físicas doam dinheiro movidas pela causa. Pessoas jurídicas doam dinheiro movidas pela responsabilidade social empresarial. Quanto mais a causa defendida pela entidade social se aproxima do investimento social estratégico da empresa, maior a chance de se fidelizar uma doação e conquistar um mantenedor.

As parcerias com o Governo também são importantes. Na esfera municipal, entidades assistenciais possuem um canal direto de comunicação com as Prefeituras e com o CRAS e CREAS – Centros de Referência da Assistência Social, e podem conquistar convênios para manter serviços sociais que estão como prioritários pela atual gestão do município: creches, casas de acolhimento, asilos, centros da criança e do adolescente, atendimentos específicos na área da saúde, entre outros.

Já nas esferas municipais, estaduais e federais, as Leis de Incentivo Fiscal também podem se transformar em boas alternativas! As doações são feitas por empresas privadas que recebem incentivos fiscais, o Governo recebe e administra estas doações em repasses às entidades sociais, como forma de controle de toda esta transação.

Mas, um aprendizado importantíssimo: Uma empresa social não pode nunca depender de apenas um único tipo de mantenedor. Pessoas físicas param de doar assim que o orçamento doméstico fica apertado. Pessoas jurídicas diminuem as doações assim que enfrentam alguma crise, principalmente se o relacionamento deles com a empresa social não estiver muito bem sustentado por uma decisão estratégica da empresa, que também lhe traga resultados. E o Governo, bem, o Governo é uma história à parte. A falta de parceria, comprometimento e cumplicidade do Governo com as empresas sociais, aliados à burocracia, troca constante dos gestores e a ineficiência de parte do funcionalismo público, provocam constantes atrasos no repasse das doações. Bem como, existem chances de um contrato anual não ser renovado sem qualquer motivo específico.

E ainda, as empresas sociais precisam ser politicamente apartidárias, e não devem criar vínculos ou “dever favores” para nenhum partido político ou funcionalismo público, de qualquer nível. O amigo de hoje pode se tornar o inimigo de amanhã.

Portanto, para que as empresas sociais possam vencer a corda bamba de sua subsistência, precisam diversificar o tipo de seus potenciais doadores. E daí, é bem importante também analisar quais serviços sociais esta Ong pode oferecer para a sociedade, como forma de obter alguma sustentação financeira adicional.

  • Gestão Administrativa: Por fim, a base de qualquer empresa está na boa gestão administrativa, financeira, contábil, jurídica e de administração de pessoas, e no Terceiro Setor isto não é diferente. 

Investir na implantação de softwares de negócios, como o ERP – Sistema de Gerenciamento de Empresas e o CRM – Sistema de Relacionamento com Clientes, e terceirizar áreas que exigem conhecimentos específicos do Terceiro Setor como as áreas contábil e jurídica, são diferenciais sustentáveis importantíssimos.

E ainda, a empresa social quer captar recursos financeiros de Bancos ou de empresas do Exterior? Então, deve investir também em realizar uma auditoria externa de todos os seus demonstrativos contábeis.

E como uma empresa sem fins lucrativos deve dar lucro para os seus “acionistas”? A resposta é simples, mas a prática é bastante desafiadora: Para o Terceiro Setor, podemos entender que os “acionistas” são, na verdade, todas as pessoas físicas, jurídicas e Governo que contribuem com recursos para a subsistência da empresa social. Só que aqui, é muito mais difícil manter um acionista.

Na empresa privada, enquanto o acionista estiver recebendo os lucros conforme a expectativa do mercado, ele tende a continuar investindo na empresa. Já no Terceiro Setor, não é assim que funciona. Se o acionista passar por uma dificuldade financeira, ou ver o seu nome colocado em risco por um trabalho mal feito pela empresa social, ou ainda, perder a percepção do impacto social que a entidade beneficente deveria estar causando na comunidade em que atua, ele pode simplesmente parar de doar. Não há contratos ou legislação que o proíbam de tal decisão.

Logo, manter os “acionistas” atuais e conquistar novos mantenedores devem ser metas sempre presentes no foco de trabalho da Instituição. E isto só será possível e sustentável ao longo dos anos, com um trabalho social eficaz e de qualidade, focados na missão e visão da Instituição; com uma Diretoria estratégica atuante e com a aquisição e investimento em profissionais capacitados em seu quadro de funcionários; com uma equipe dedicada ao desenvolvimento das relações institucionais, comunicação, marketing e captação de recursos; e com uma gestão administrativa de bases sólidas, que trabalhe dentro da legislação vigente e que forneça os resultados de forma transparente e auditáveis por qualquer interessado. Transparência, Competência e Credibilidade devem estar no DNA de qualquer empresa do Terceiro Setor que deseja sobreviver em tempos de crise!

E, até hoje, para as pessoas que ainda insistem em lhe perguntar como está a realização do seu trabalho no Instituto, e ela é firme na resposta: “Sempre desafiador. Vir trabalhar no Terceiro Setor foi a melhor escolha que ela fez para o meu crescimento e satisfação profissional! ”.

POR:  – Gerente Executiva no Instituto da Oportunidade Social

 

One thought on “Desmitificando a gestão do Terceiro Setor

  1. Maria Emilia Nascimento

    Achei muito interessante a forma como a Kelly aborda o tema. Tratar as ONG’s ou OSC, nova designação dada pelo MROSC de 2014, é uma forma de deixar claro que não é pelo fato de ser uma ONG que a gestão não deva ser profissional, pois uma boa gestão é fundamental para o sucesso de qualquer tipo de Organização independente da sua finalidade ser lucrativa ou não.

Comment

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*
*