Especialistas sugerem medidas sustentáveis em cidades para evitar a emergência de zoonoses

Autor: Pedro Madeira

Diferentes hipóteses para a origem do surto de Covid-19, que matou ao menos 160 mil pessoas no mundo e mantêm em confinamento populações de 170 países, desafiam cientistas. Apesar de inconclusiva, a possibilidade de que tenha ocorrido no mercado de animais silvestres em Wuhan, na China, soa o alerta em relação aos casos de doenças transmitidas de animais a humanos, as chamadas zoonoses.

Das doenças infecciosas emergentes surgidas nas últimas décadas, 75% começaram em bichos. O número é do estudo “Zoonoses: linha tênue entre doenças emergentes e saúde ecossistêmica”, realizado em 2016 pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Segundo o artigo, o aumento das zoonoses estão relacionados à distúrbios ecológicos gerados pela intervenção humana, que vão desde a intensificação da agricultura até o comércio ilegal de animais silvestres.

Imagem: Frutos do mar são comuns de se achar em feiras de animais na Ásia CreativeCommonsZero-CC0

“A natureza está nos mandando uma mensagem. Nunca houveram antes tantas oportunidade disponíveis para patógenos passarem de animais selvagens e domésticos para as pessoas”, afirma Inger Andersen, diretora executiva do PNUMA. “Nossa contínua erosão nos espaços selvagens nos aproximou de animais e plantas que abrigam doenças que podem pular nos humanos”.

Não faltam exemplos de epidemias causadas por desleixo na intervenção humana em espaços selvagens. Em 1998, o surto do Nipah vírus, que ocasionou cem mortes na Malásia e países vizinhos, originou-se, segundo estudos epidemiológicos, numa fazenda de porcos. Morcegos também atuaram como vetor na ocasião, contaminando frutas que depois foram consumidas por porcos, que amplificaram a transmissão a pessoas.

Imagem: Fazenda de porcos foram lugar de origem no surto do Nipah virus em 1998 -Creative Commons Zero – CC0

De acordo com o relatório do PNUMA, a mudança climática e o desmatamento de áreas florestais também influenciam no surgimento de novas doenças. Hoje, a cada quatro meses uma nova doença infecciosa emerge em humanos. Porém, informa o órgão da ONU, é impossível antecipar de onde ou quando virá o próximo surto. Resta, portanto, se prevenir.

“O controle das zoonoses requer uma abordagem integrada e intersetorial. Em nível global, três organizações cobrem as diligências diante das doenças zoonóticas: a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Organização Mundial para Saúde Animal (OIE, na sigla em ingês) e a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO)”, informa o PNUMA.

Em entrevista à agência de notícias espanhola EFE, Andersen acredita que a chave para conter pandemias a longo prazo está no auxílio à biodiversidade. Para isto, diz a ambientalista, as soluções ambientalmente sustentáveis estão nas cidades, com o desenvolvimento de energia limpa, edifícios energeticamente eficientes e transporte público.

“Segundo o Banco Mundial, hoje, mais de 50% da população global vive em áreas urbanas. Para 2045, este montante aumentará em 1,5x. As cidades são primordiais para o crescimento sustentável. Por isso, precisamos avançar a um futuro mais limpo e verde”, aponta Andersen.

Para o virologista espanhol Adolfo García-Sastre, chefe de patógenos emergentes do Hospital Monte Sinai, em Nova York, haverá provavelmente outra pandemia de vírus relacionados à gripe, e os governos devem gastar com prevenção o mesmo que gastam na defesa contra as pandemias.

“Para fazer guerra com outros países ou nos defender se gasta muito dinheiro em armamento, que no final não são usados, mas são considerados necessários numa eventual deflagração. Com as pandemias é igual: devemos ter capacidade hospitalar e serviços caso aconteça uma nova. Isso custará muito dinheiro e terá de ser pago mesmo que nada aconteça”, afirmou o cientista, em entrevista ao El País.

Na opinião de Garcia-Sastre, o descontrole no contágio de coronavírus não foi culpa de um ou dois países em particular, mas de todos os governos, que não se preparam contra pandemias, mesmo sabendo que, a cada 20 ou 30 anos, ocorrem surtos de gripes tão severas quanto à Covid-19.

“O principal problema não é tanto se as medidas de contenção foram tomadas mais cedo ou mais tarde. Isto vem de muito antes. Não temos leitos suficientes, nem pessoal, nem material. Isto explica por que agora temos de adotar medidas de contenção tão severas para tentar evitar um colapso”, disse o virologista.

Embora represente um custo excedente, orçamentos reservados à prevenção, de acordo com o PNUMA podem evitar grandes impactos econômicos provocados por epidemias: nas últimas duas décadas, governos gastaram diretamente com doenças emergentes mais de US$ 100 bi (cerca de R$ 520 bi).

“O Banco Mundial estimou que um investimento de US$ 3,4 bi (R$ 18 bi) por ano em sistemas de saúde animal poderiam evitar baixas econômicas incorridas devido a respostas atrasadas ou inadequadas a zoonoses – perdas estimadas em US$ 6,7 bilhões por ano”.

Hipóteses em relação a origem do vírus

Capital da província de Hubei, situada na região central da China, Wuhan dá lugar ao Mercado Atacadista de Frutos do Mar de Huanan há 15 anos. Mais de mil feirantes, distribuídos em 50,000 m², negociam a céu aberto animais vivos, como peixes e moluscos. Mais raros, animais silvestres também são comercializados no mesmo espaço, o que expõe pessoas ao contato com morcegos, pangolins e outros — um cenário propício ao contágio de doenças.

Imagem: Venda ilegal de pangolins e cobras em mercado de animais silvestres na Birmânia Dan Bennett_Creativecommons

Mamífero mais negociado ilegalmente no mundo, de acordo com a União Internacional para Conservação da Natureza, os pangolins, apontam especialistas, poderiam ter sido um vetor intermediário entre morcegos e humanos. Mas, para Stephen Turner, chefe do departamento de microbiologia da Universidade Monash de Melbourne, a hipótese ainda é inconclusiva.

“Parte do problema é que a informação é tão boa quanto a vigilância do mercado”, afirma Turner, em entrevista ao The Guardian. “Se o pobre pangolin foi a espécie em que o vírus pulou, não está claro. Ou se misturou em outra coisa, ou num pangolin, ou se pulou nas pessoas e evoluiu nelas, ainda está em aberto”.

Imagem: Pele de pangolins confiscada em Camarões em 2017_ USFWS 2 – Kenneth Cameron

Um estudo estatístico de cientistas chineses, lançado em março na revista Microbes and Infections, analisaram uma das características do vírus que evoluiu ao longo da transmissão e que permitiu a aderência dele em células humanas. Descobriu-se que pangolins estavam aptos a desenvolver esta propriedade, mas gatos, búfalos, cabras, ovelhas e pombos também.

é mesmo a influência da feira de Wuhan no germe da pandemia é questionável. Análises dos primeiros 41 pacientes com Covid-19 — realizadas pelo jornal médico Lancet — descobriram que 27 deles tiveram exposição ao mercado, porém o mesmo exame apontou que o primeiro caso conhecido da doença não teve.

A origem da Covid-19 se tornou inclusive um motivo para embate político entre China e Estados Unidos. Na última sexta-feira (17), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou que o país norte-americano investiga rumores de que alguém tenha se infectado por um morcego no instituto de virologia da cidade de Wuhan.

Imagem: Vetores na transmissão da Covid-19 morcegos também atuaram da mesmamaneira-no surto de Nipah virus. RainaPlowright – WikipediaCommons

Trump disse que “mais e mais, vem ouvindo essas histórias”. Em resposta, o porta-voz do governo chinês afirmou, no mesmo dia, que os Estados Unidos querem confundir o público. Um dia depois, o diretor do laboratório negou categoricamente a hipótese insinuada por Trump. “É impossível que esse vírus venha de nós”, disse Yuan Zhiming, diretor do laboratório de Wuhan, em entrevista à mídia pública chinesa.