Autor: Pedro Madeira

Cuidadores independentes e ONGs esperam por auxílio, enquanto animais abandonados necessitam de ajuda extra

Ao perceberem que cães e gatos de rua precisavam de atenção especial durante a quarentena, representantes do grupo de proteção animal Pelo Amor, que atua em Atílio Vivácqua, município do Espírito Santo, bateu às portas do comércio local em busca de colaboradores antes de as medidas restritivas apertarem. Para júbilo de Claudia Louzada, presidente da associação, a operação arrecadou dinheiro, material e ração suficiente para a rede de voluntários instalar comedouros e bebedouros pela cidade.

De acordo com Claudia, moradores e comerciantes do município costumavam ajudar os animais abandonados, deixando água e comida na porta de casa. Entretanto, ela afirma, como a população de Vivácqua adotou com afinco as medidas de distanciamento social, embora não haja nenhum caso da doença confirmado na cidade até então, os bichos ficaram em situação ainda mais vulnerável.

“Foi uma medida com intuito de remediar esse quadro. Nossa ONG tinha um dinheiro em caixa, além de recebermos doações espontâneas. Fora isso, também conseguimos patrocinadores. As próprias peças usadas na montagem dos comedouros e bebedouros, como braçadeiras e canos, foram doadas por uma loja de material de construção”, disse Claudia.

Segundo ela, projetos como o Pelo Amor são viáveis apenas com a parceria e o apoio à causa por parte da sociedade, pois dependem de donativos e patrocínios. Alguns dos suportes de alimentos, conta Claudia, são abastecidos por ração advindas de contribuições, enquanto outros ficam sob a responsabilidade de comerciantes ou benfeitores. Após uma emissora local exibir reportagem sobre o trabalho realizado pelo grupo, doadores fixos se dispuseram a auxiliar.

“A recepção aqui em Vivácqua foi ótima. Conseguimos um retorno bacana de pessoas ligando e entrando em contato nas redes sociais. Muitas doações recebidas fizeram uma baita diferença. Nós passamos pelo comércio solicitando apoio e explicando a causa”, relatou Cláudia.

Quem também sentiu os impactos da quarentena no trabalho de proteção animal foi Marcia Cristiane Souza (Marcitta, como é conhecida). Moradora de Magé, onde chegou há 7 anos após se mudar de sua cidade natal, Salvador, Marcia percebeu mais cachorros com coleira circulando pelas ruas do bairro. Em sua maioria, ela conta, os animais não permitem o acolhimento, pois reagem de maneira agressiva às aproximações de cuidadores.

Imagem: Marcia Cristiane

“Esses cachorros sabem andar na rua, mas muitos aparecem atordoados. Conseguir pegá-los sozinha é difícil, pois são muito ariscos. Além disso, onde moro meus cães não aceitam nenhum novo bicho, inda mais se for adulto, então não tenho condições de trazer, só se for filhote. Recentemente, acolhi 14”, afirmou Marcitta.

Há sete anos no trabalho de proteção animal, a cuidadora independente, que também é artesã, mantêm 23 “bichos” praticamente sozinha, salvo quando viaja e os dois filhos realizam os cuidados diários. Segundo Marcitta, praticamente todo o rendimento no ateliê — onde opera uma bordadeira eletrônica na produção de patches para encomendas — é destinado à ração e aos medicamentos dos cachorros. Doações ela só veio a receber, pela primeira vez, nesta semana. E como está sem pedido algum durante a quarentena, Marcitta se viu obrigada a solicitar doações aos amigos mais próximos.

“Uma cachorrinha minha [Pretinha] morreu há pouco tempo com doença de carrapato pois não tinha dinheiro para comprar o medicamento. Todo ano eu compro, mas esse ano eu não consegui. Houve uma outra também com o mesmo problema que chegou a perder coordenação motora. Usava fralda e tinha uma série de dificuldades, mas hoje em dia voltou ao normal. Alguns acreditam se tratar de um milagre, por conta das sequelas, que a princípio seriam permanentes”.

Além da falta de alimentos, as doenças também preocupam as ONGs e cuidadores independentes. De acordo com Cláudia, na maior parte das vezes, os acolhedores resgatam os animais com a saúde debilitada, apresentando quadros de saúde que requerem não só tratamentos medicamentosos, como também passar por exames caros. Claudia já acolheu alguns com cinomose, doença do carrapato e desnutrição.

Já aos cuidadores independentes, doações são imprescindíveis neste momento. Marcitta conta aliviada que recebeu sacos de ração ultimamente. Ao mês, os cachorros sob a sua tutela, mais os que ela alimenta nas ruas, consomem cerca de 300 kg de alimentos. No entanto, o seu maior receio são os remédios.

“Agora mesmo eu to com uma filhote prestes a vacinar. Ia dar uma segunda dose da vacina, mas como ela está com alergia e imunidade baixa, preciso dar corticoide, vitamina e antibiótico. Também tô precisando muito do Simparic, para tratar pulga, carrapato e alergia de pele. Então são variados os tipos de remédios que faltam”.

No Rio, quarentena leva ao aumento no número de animais abandonados

Após o início da quarentena, Sylvia Santos, diretora social da Sociedade União Internacional Protetora de Animais (Suipa), notou um crescimento nos abandonos na sede da organização em Benfica. Isso se deve, afirma Sylvia, pois muitas pessoas ainda acreditam que animais podem transmitir o vírus. Também foi observado uma queda na quantidade de doações e na procura por adoção.

“Da mesma forma, necessidades financeiras, uma realidade de muitos, podem ter influenciado no abandono. Estamos recebendo menos jornal, material de limpeza, ração, equipamentos de proteção, como máscara, avental e luva. Acredito que esse cenário se repete em outras ONGs e protetores independentes”, disse Sylvia.

De acordo com Sylvia, os eventos promovidos pela Suipa, nos quais a associação arrecada fundos e faz adoções, foram suspensos, provocando uma queda na receita. Mas, assegura a diretora, não faltará alimentação aos quase três mil animais, que consomem em torno de 30 toneladas de ração por mês.

“A gente tem prioridades aqui, primeira delas é alimentar os animais. Inclusive nosso salário atrasou pois vamos dar prioridade à ração deles. Nenhum passa fome, não há chances de isso acontecer”, afirmou a diretora.

Com objetivo de atrair doações, a Suípa lançou a campanha nas redes sociais chamada “#nãoesquecedagente”, reforçando a importância das doações neste momento para custear o material utilizado no abrigo, bem como cumprir com a folha de pagamento. Por não ser uma organização pública, a entidade septuagenária depende da contribuição dos associados, de empresas e de donativos individuais.

“Quem quiser doar pode entrar no nosso site. Neste momento, precisamos mais de ração, mas também material de limpeza, álcool setenta, saco de lixo e jornal. Estamos sobrevivendo e resistindo. Até agora conseguimos”.

Na contrafluxo dos baixos indicativos deste período pandêmico, há organizações em ritmo de demanda ampliado. Por exemplo, o ProPets, um braço do Instituto Tecnoarte, atuante na proteção animal em Guapimirim. A ONG conseguiu oferecer novos lares à 53 animais resgatados, no mês de abril, um aumento de 65% em relação as adoções do mês de março. O projeto, estruturado em três pilares — comunicação, articulação de políticas públicas e acolhimento de animais — vem articulando a criação do conselho de defesa e proteção ao animais com a Secretaria de Ambiente de Guapimirim e ampliando os resgates e as doações de animais, com a atuação da rede de protetores.

Aos interessados em entrar em contato com a Suípa, o site é o www.suipa.org.br/.

Para contactar a ONG Pelo Amor, entrar na página do facebook. https://www.facebook.com/ongpeloamor/.

O perfil do facebook da Marcita, de Magé, é o https://www.facebook.com/marcita.souza.75.