Autor: Francisco Pontes de Miranda Ferreira¹
Introdução: Um paraíso perdido às vésperas da colonização
Quando as primeiras embarcações portuguesas cruzaram a barra da Baía de Guanabara no ano de 1500, não encontraram o espaço degradado e poluído que hoje conhecemos.
Em seu lugar, depararam-se com um complexo mosaico de manguezais, restingas, lagunas, brejos, dunas, costões rochosos e ilhas cobertas pela exuberante Mata Atlântica, habitado por dezenas de milhares de indígenas Tupinambás que ali viviam em equilíbrio com a natureza.
Esse retrato – quase inacreditável diante da realidade atual – foi minuciosamente reconstituído pelo professor Elmo da Silva Amador (1943–2010), da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em sua obra clássica Baía de Guanabara: Ocupação Histórica e Avaliação Ambiental (2013), na primeira parte do Volume.
1. O legado de Elmo da Silva Amador: Ciência, militância e memória ambiental

Imagem: https://museudapessoa.org/historia-de-vida/dar-de-si-para-mudar-o-mundo/
Elmo da Silva Amador dedicou grande parte de sua vida ao estudo e à proteção da Baía de Guanabara, transitando com desenvoltura entre a vida acadêmica e o ativismo socioambiental.
Foi o principal responsável pela criação da Área de Proteção Ambiental (APA) Guapimirim, uma das últimas zonas de manguezal relativamente preservadas no entorno da baía.
Em seu clássico, ele descreve de forma fantástica como era ambientalmente e socialmente a baía no ano de 1500, antes do estrago provocado pela colonização.
Sua contribuição foi publicamente homenageada no dia 17 de abril, durante o lançamento do Centro de Formação em Economia do Mar, no Hangar da Ilha do Fundão. Essa iniciativa é do Movimento Baía Viva – movimento que conta com o apoio do Núcleo Interdisciplinar para o Desenvolvimento Social (NIDES/UFRJ) e a parceria da Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental.
Tal reconhecimento demonstra que o pensamento de Amador permanece vivo como referência para políticas de desenvolvimento social e proteção ambiental.
2. A Baía de Guanabara em 1500: Um mosaico de ecossistemas

A paisagem era dominada por uma sucessão de manguezais que se estendiam por 257,9 km² ao longo de todo o litoral, intercalados por lagunas, brejos, restingas e dunas.
As restingas ocupavam 132 km², com exemplares emblemáticos como Copacabana (4 km), Piratininga (3 km) e Itaipu (3 km).
Dunas de até 25 metros de altura podiam ser encontradas em Itaipu.
Os brejos encharcavam áreas hoje completamente urbanizadas, como o Bairro Peixoto e o Posto 6 (na Zona Sul do Rio).
A Mata Atlântica apresentava-se em estado clímax, com dosséis de até 30 metros formados por jequitibás, cedros e pau-brasil.
Essa cobertura vegetal recobria tabuleiros cenozoicos, serras, morros e colinas, criando uma grande amplitude topográfica que variava de terras baixas a áreas montanas acima de 2.000 metros, onde nasciam os principais rios.
3. A hidrografia exuberante e as ilhas perdidas
A baía recebia as águas de aproximadamente 50 rios e córregos, cujos baixos cursos formavam meandros, amplas planícies de inundação e estuários repletos de manguezais.
Os maiores rios – Macacu, Guapi e Estrela-Inhomirim – tinham nascentes na Serra dos Órgãos, a mais de 2.000 metros de altitude.
O rio Macacu, o mais extenso, possuía bacia de 950 km² e nascente próxima à Nova Friburgo.
O rio Guapi, formado pelos rios Guapiaçu e Guapimirim, apresentava 200 metros de largura na foz.
O rio Meriti, com seu estuário de 500 metros de largura, e o rio Iguaçu, com bacia de 470 km² e 150 metros de largura na foz, completavam esse quadro de abundância hídrica.
A baía abrigava 27 ilhas e ilhotas, sendo as maiores a Ilha do Governador (então chamada Paranapuam), Itaoca, Guari e Paquetá.
Morros como o Pão de Açúcar, Cara de Cão e Pasmado eram insulares, ou seja, separados do continente por canais hoje aterrados.
Na região central da atual cidade do Rio de Janeiro, os morros de São Bento, Conceição e Providências também eram ilhas, e o Morro da Saúde ligava-se ao continente apenas por uma restinga.
A Gamboa era uma enseada, o Largo do Machado um brejo e o Arco da Lapa situava-se às margens da Laguna do Boqueirão.
Todo esse complexo sistema lagunar e insular foi progressivamente aterrado pelos portugueses, eliminando a conectividade ecológica original.
4. Os povos da tradição Tupi-guarani: Uma sociedade de equilíbrio
Amador descreve com detalhes a ocupação humana da baía em 1500.
Os colonizadores encontraram os Tupinambás, pertencentes à tradição Tupi-guarani, que haviam migrado do Sul.
Estima-se que existiam de 30 a 40 aldeias na baía e no interior próximo, com população total podendo chegar a 120 mil habitantes.
Cada aldeia (ou taba) reunia mais de 500 pessoas, podendo atingir 3.000, e várias tabas formavam uma tribo, enquanto várias tribos constituíam uma nação.
Os indígenas viviam em ocas construídas com sape e palmeiras, dormiam em redes e esteiras, e organizavam-se socialmente.
As mulheres cuidavam das crianças e da lavoura, enquanto os homens caçavam, pescavam, construíam e guerreavam.
Toda a caça e pesca era dividida coletivamente na aldeia.
Os Tupinambás praticavam agricultura de coivara: queimavam pequenas áreas desmatadas antes de semear, mas deixavam o solo em pousio para regeneração, evitando o desequilíbrio ecológico.
Cultivavam milho, cará, batata-doce, abóbora, tabaco, pimentas e frutas.
Complementavam sua dieta com a caça abundante (pacas, veados, antas, porcos do mato, onças e macacos) e a pesca nos manguezais, onde coletavam caranguejos, ostras e construíam cercados de bambu e madeira (as gamboas) para aprisionar peixes.
Dominavam o fogo, produziam cerâmica sofisticada (potes, panelas, pratos, travessas) e fabricavam embarcações e artefatos.
A obra de Elmo da Silva Amador representa um marco na historiografia ambiental brasileira. Seu mérito principal reside em integrar conhecimentos geológicos, botânicos, zoológicos, hidrológicos e antropológicos para produzir um retrato holístico da Baía de Guanabara pré-colonial.
Essa abordagem interdisciplinar permite compreender que a degradação atual não é apenas resultado da poluição industrial ou do crescimento urbano desordenado, mas de um processo histórico de longa duração que começou com a supressão dos manguezais, o aterramento das lagunas e a expulsão das populações indígenas.
A exuberância descrita – os manguezais de 257,9 km², as 27 ilhas, os 50 rios, os dosséis de 30 metros de Mata Atlântica, as populações tupinambás vivendo em equilíbrio – não é mera nostalgia romântica, mas um chamado à ação.
O Centro de Formação em Economia do Mar, homenageando Amador, precisa incorporar essa memória como diretriz para um desenvolvimento que não repita os erros do passado.
Conhecer a baía de 1500 é, afinal, um ato de resistência e de esperança.
Referência
AMADOR, E. S. Baía de Guanabara: Ocupação Histórica e Avaliação Ambiental. Rio de Janeiro: Editora Interciência, 2013. 515 p.
¹ Francisco é Doutor em Ciências do Meio Ambiente, Jornalista e Diretor de Relações Interinstitucionais do Instituto Tecnoarte
