Pular para o conteúdo

História Ambiental Negra: O Legado das Populações Afrodiaspóricas na Mata Atlântica e no Parque Estadual dos Três Picos

    Texto e imagens: Wallace Marcelino da Silva¹

    Assista em animação

    A História Ambiental é uma ferramenta poderosa para entendermos como as paisagens mudam a partir do encontro entre a cultura humana e o meio ambiente. No entanto, ao olharmos para a Mata Atlântica — especialmente na região serrana do Rio de Janeiro — percebemos que uma parte vital dessa história tem sido contada de forma incompleta.

    Este artigo propõe um olhar decolonial sobre o Parque Estadual dos Três Picos (PETP), revelando a contribuição fundamental das populações negras afrodiaspóricas na preservação e formação destas florestas.

    Uma Lacuna na História Oficial

    Historicamente, a narrativa sobre a preservação das florestas tende a escamotear a contribuição de povos e etnias negras. A pesquisa realizada nos territórios de Nova Friburgo, Teresópolis, Cachoeiras de Macacu, Silva Jardim e Guapimirim busca preencher essa lacuna, demonstrando que existe uma verdadeira História Ambiental negra nessas localidades.

    Desde os tempos dos antigos “Sertões de Macacu”, as etnias afrodiaspóricas não apenas trabalharam em atividades econômicas (como engenhos e retirada de madeira), mas estabeleceram uma relação profunda com a terra.

    Paisagens Africanizadas: Cultura e Ecologia

    Os atuais 65.000 hectares do PETP não são apenas natureza intocada; são paisagens repletas de influência cultural africana.

    • Biodiversidade Cultural: Espécies de plantas e animais foram trazidas e adaptadas durante o período da escravização.
    • Manejo da Terra: Modos de cultivo e construção de quilombos criaram o que chamamos de “paisagens africanizadas”.
    • Visão Ecológica: Ao contrário da visão europeia, que muitas vezes provocou ecocídios, a visão ecológica negra e suas práticas de resistência mostraram-se benéficas para a preservação dos ecossistemas.

    “Estas relações ecológico-culturais das populações negras afrodiaspóricas… criaram verdadeiras paisagens africanizadas que hoje podem ser estudadas dentro de uma História Ambiental negra.”

    Quilombos: Resistência e Refúgio na Serra

    A região serrana foi palco de diversas insurreições e da formação de quilombos, desde o levante de Manoel Congo até os refúgios na região de Macaé de Cima (hoje parte do PETP). Identificamos dois tipos clássicos de quilombos na região:

    1. Quilombos de Zonas Pantanosas: Localizados nos rios e manguezais próximos à Baía de Guanabara.
    2. Quilombos de Serra/Floresta: Aqueles que habitavam o relevo acidentado e as florestas densas, como na atual Reserva Biológica do Tinguá e Macaé de Cima.

    Esses grupos necessitavam dos recursos da Mata Atlântica para sobreviver, gerando uma interação que protegeu expressivas partes do que hoje é Unidade de Conservação.

    Mata Atlântica na região de Macaé de Cima, local histórico de quilombos no PETP

    O Presente: Conexão Ancestral e Futuro

    Ainda hoje, a herança dessa resistência vive. O campesinato afrodiaspórico atual mantém uma existência contínua àquela iniciada nos séculos passados. Os descendentes dependem dos atrativos naturais — seja através de banhos de cachoeira, uso de plantas medicinais ou espaços sagrados nas matas.

    Para o futuro da gestão ambiental, é essencial:

    • Reconhecer que as áreas mais preservadas do PETP foram regiões históricas de atuação negra.
    • Estabelecer novas conexões entre os gestores do parque e os moradores afrodiaspóricos.
    • Valorizar as florestas culturais africanizadas em projetos de educação ambiental, combatendo o apagamento histórico.

    PETP na localidade de Estreito mostrando sua diversidade ecológico-cultural


    Referências Bibliográficas

    ALVIM DE MATTOS, Victoria Couto. Vozes que ecoam da floresta: a História Ambiental Indígena da Mata Atlântica friburguense (RJ). Dissertação (Mestre em História) – Pós-Graduação em História Social, Universidade Federal Fluminense, Instituto de História, Niterói, 2025.

    BOTELHO, Janaína. Mão de Luva: O desbravador dos Sertões do Macacu. Guia comercial e turístico de Nova Friburgo, 03 de setembro de 2022. Disponível em: https://friburgoascigtur.org/mao-de-luva-o-desbravador-dos-sertoes-do-macacu/. Acesso em 31 de jan. de 2025.

    BURMEISTER, Hermann. Viagem ao Brasil através das províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Belo Horizonte: Itatiaia, 1980.

    CABRAL, Diogo de Carvalho. Na Presença da Floresta: Mata Atlântica e História Colonial. Rio de Janeiro: Garamond, 2014.

    CAPOBIANCO, João Paulo. Dossiê Mata Atlântica. Brasília: RMA, 2001.

    CARDOSO, Ciro Flamarion S. Escravo ou camponês? O Protocampesinato negro nas Américas. São Paulo: Brasiliense, 1987.

    CARDOSO, Vinicius Maia. Pouco conhecido, montuoso e emboscado: Poder e economia no Sertão de Macacu – 1786-1790. 1ª ed. Jundiaí: Paco Editorial, 2024.

    CARNEY, Judith A. Subsistence in the Plantationocene: Dooryard gardens, agrobiodiversity, and the subaltern economies of slavery. The Journal of Peasant Studies, v. 48, n. 5, p. 1075-1099, 2021.

    DOS SANTOS, Antônio Bispo. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu, 2023.

    DRUMMOND, José Augusto Leitão. Devastação e preservação ambiental: os parques nacionais do Estado do Rio de Janeiro. Niterói: EDUFF, 1997.

    FERDINAND, Malcom. Uma Ecologia Decolonial: pensar a partir do mundo caribenho. São Paulo: Ubu, 2022.

    GOMES, Flávio dos Santos. Histórias de Quilombolas: mocambos e comunidades de senzalas no Rio de Janeiro- Século XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995.

    LAMEGO, Alberto Ribeiro. O Homem e a Serra. 2ª ed. Rio de Janeiro: IBGE, 1963.

    MAPBIOMAS. Territórios quilombolas estão entre as áreas mais preservadas do Brasil. MapBiomas, 13 de dezembro de 2023. Disponível em <https://brasil.mapbiomas.org/2023/12/13/territorios-quilombolas-estao-entre-as-areas-mais-preservadas-no-brasil/>. Acesso em 19 de out.2024.

    MARTINS, Marcos Lobato. História e meio ambiente. São Paulo: Annablume, 1997.

    MERCADANTE, Paulo. Os sertões do leste: estudo de uma regiãoa mata mineira. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973.

    MOREIRA, Philippe Manoel da Silva. Os Enclaves Rebeldes e os Ecossistemas de Dendês no Vale da Estrela: Uma História Ambiental da formação e organização dos quilombos no antigo Recôncavo do Rio de Janeiro no século XIX. In: Encontro – Escravidão e Liberdade, 12, 2025, Florianópolis. Anais Eletrônicos […]. Florianópolis, 2025.p. 1-15. Disponível em: https://www.escravidaoeliberdade2025.eventos.dype.com.br/anais/trabalhos/lista. Acesso em 18 de out. de 2025.

    O CAFÉ, subidor de morros e destruidor de florestas. Vídeo. 57min e 21s. Publicado pelo canal Janaína Botelho. 27 de ago. de 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=lNaJ5W9INh4. Acesso em 17 de maio de 2025.

    PEDRO, Gustavo. Parque Estadual dos Três Picos. Rio de Janeiro: Luminati, 2017.

    SANGAT, Sushma Shrestha et al. Afro-descendant lands in South America contribute to biodiversity conservation and climate change mitigation. Communications Earth & Environment, v. 6, n. 1, p. 458, 2025.

    SILVA, Wallace Marcelino. História Ambiental de populações negras em Unidades de Conservação: O caso da Reserva Biológica do Tinguá. Dissertação (Mestre em Biodiversidade em Unidades de Conservação), Pós-Graduação Profissional Biodiversidade em Unidades de Conservação, Instituto de Pesquisas Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 2023.

    SILVA, Wallace Marcelino da. Por uma História Ambiental negra: uma leitura no Parque Estadual dos Três Picos – RJ. 2025. 375 f. Tese (Doutorado em Meio Ambiente), Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2025.

    TUAN, Yi-Fu. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. Rio de Janeiro: Difel, 1980.

    VON TSCHUDI, Johann Jakob. Viagem às Províncias do Rio de Janeiro e S. Paulo. São Paulo: Martins Editora, 1953.

    WATKINS, Case. Palmeiras africanas em solos brasileiros: Transformação socioecológica e a construção de uma paisagem Afro-Brasileira. Historia Ambiental Latinoamericana y Caribeña (HALAC) revista de la Solcha, v. 10, n. 1, p. 150-193, 2020.

    ¹ Wallace, é Doutor, pelo Programa de PósGraduação em Meio Ambiente, da Universidade do
    Estado do Rio de Janeiro